18 abril 2013

Só os Jovens podem Quebrar


Só os Jovens podem quebrar

Nota Introdutória
Este livro não vai ser fácil de escrever. É escuro. Escuro demais até para a minha imaginação. Totalmente diferente do anterior.
O pano de fundo é um país dividido, perdido e sem esperança. A personagem principal é um homem cheio de bons valores mas sem espaço para os aplicar numa sociedade que se irá limitar a usá-lo e deitá-lo fora em cada degrau que ele percorre até à descida para uma decisão irreversível. Não sei se vou conseguir transmitir tudo isso nele e nas ligações dele com as outras personagens. Contudo, estes dois primeiros capítulos são dos poucos onde teremos a ideia de que as coisas podem ser melhores. Mas não o serão. Fica já o aviso. O primeiro dá um cheirinho sobre a sociedade a que ele pertence e a forma como ele vive. O segundo mostra amor e… sexo. Porquê? Porque nem tudo é o que parece… E mais para a frente certamente este capítulo que parece muito terno e até intenso, não será assimilado da mesma maneira…
Os restantes capítulos estão totalmente estruturados no guião e na minha cabeça… Apenas não estão desfragmentados em inúmeras palavras.


Capítulo 1

00.58 - Quarta-feira, 15 de Novembro de 2012:

Não consigo adormecer! Bem que queria, mas lá fora o estado caótico da cidade angustiada lança uma nuvem de raiva que rodeia a minha janela e ameaça entrar em cada uma das frinchas sob a forma de um ar frio, húmido e melancólico, para tornar este meu pequeno e último refúgio em mais um canto sem esperança, neste local abandonado por Deus.
Oiço gritos de protesto e contra movimentações de agressão indiferenciada a ecoarem pelas paredes do apartamento, como se o início de uma guerra civil não fosse um pensamento descabido, mas uma palpável acendalha junto de madeira e combustível.
São manifestantes a levarem o seu direito à indignação a extremos de destruição gratuita e polícias de intervenção com ordens totalitárias para não deixarem a indignação ter voz física nas paredes, nas montras, nas estradas. A única marca permitida nas ordens que ressoam chama-se sangue. Sangue intimidatório.
Oiço um estouro enorme! E nas paredes do quarto, fogo encardido reflecte-se como se uma chama estivesse a passear ao longo da rua.
Mas, se existe verdadeiro “cocktail molotov”, este é de pessoas contra pessoas a explodirem-se umas contra as outras, apenas com raiva nos olhos.
O simples motivo que originou tudo no dia de hoje - umas estarem contra as acções de governantes que não se importam com as especificidades das suas necessidades e outras estarem a cumprir ordens para salvaguardar as suas próprias necessidades – apenas serve a quem provocou o caos.
Quem provocou o caos, certamente não foram os que agora se confrontam.
Foram aqueles que não possuem coragem para dar a cara. Frente a frente perante as adversidades. Aqueles que devem assumir as suas responsabilidades. Explicar as suas acções. Demonstrar a coragem humana de liderança.
Porque quem provocou o caos alimenta-se deste. Da sua natureza monstruosa. Destruidora de sonhos simplicistas. Criadora de medos, intrinsecamente assimiláveis.
Quem criou esta babilônia precisa de cinzas de corajosos entes menores para se reconstruir. Refundar novas ideias de poder. Confronto entre classes de irmãos. Incerteza e indefinição. Tempo e desespero.
Finalmente, subserviência de almas despojadas de força para lutar… Ansiosas por um pão duro.
E, porque ser rastilho, incitador, instigador, inflamador, é extremamente fácil quando a protecção está assegurada por princípios nucleares da natureza humana que verifica numa personagem facilmente detestável a possibilidade de redenção, caso a protecção física falhe.
Porque quem hoje luta contra irmãos com raiva… Amanhã, invariavelmente, perdoará quem o considera filho bastardo.
Mas ainda quero dormir. Preciso de dormir.
Aqui sozinho. Longe da confusão enorme que preenche os cantos à povoada rua.
Aqui sozinho. No meu pequeno canto, que preenche todos os requisitos para fechar os olhos e sonhar com dias melhores.
Amanhã tenho que trabalhar! Tenho tanta coisa para fazer!
Já não durmo bem há dias e estou desgastado com toda esta situação. Todo este cinzento que reside na sociedade.
Como deixamos chegar as coisas a este ponto? E porque é que eu continuo a pensar? Porque é que estou preocupado? Tenho o meu emprego. Tenho a minha casa. Tenho a minha vida. Tenho comida no estômago… Sobrevivo.
Neste momento, sobreviver é a única forma de viver. Principalmente para quem tem um cadastro como o meu.
Será que tenho alguma coisa para tomar na farmácia?
Levanto-me? Sim. Aproveito para mijar, que pode sempre ajudar qualquer coisa.
Como é que ainda consegue-se ouvir o barulho lá fora? Que coisa feia.
Os meus pés vibram num taco convertido em onda de madeira desconforme. Até o pó acumulado levita, tal é a agitação lá fora.
Cada passada, longe do recolher reconfortante que é a minha cama torna-se um foco de angústia, incerteza, medo.
A porta da casa-de-banho também está a baloiçar ao som de cada petardo. Ao menos as paredes não estão a perder tinta ou a rachar…
Entro na divisão mais fria da casa mas também a mais clara. A luz que acende-se, por instantes encandeia os meus cansados olhos. Mas recupero rapidamente a visão, para encontrar o espelho da farmácia a mostrar-me uma cara desgastada, destruída, doente, desumanizada.
Abro a farmácia. Não quero mais ver esta figura que não conheço!
Mas está completamente vazia de medicamentos.
Ela levou-os todos quando fugiu…
Deixa-me mijar. Pelo menos isso.
Como o mijo flui tão branco até à retrete? Sem dúvida, não estou a abusar na alimentação. Um pequeno prazer, esvaziar a bexiga. Está a saber bem. Isto, certamente, vai reconfortar-me e acalmar-me. Vou adormecer bem, sem dúvida.
Acabo. Sacudo. Viro-me e lavo as mãos. Purificação do corpo. Sinto-me bem. O barulho torna-se secundário perante a certeza de que agora vou dormir. É uma certeza que trago comigo.
Atiro-me para a cama e enrolo-me nos cobertores! E o corpo parece saber que vai aquecer rapidamente! Volto a um estado de relaxamento que já não sentia a algum tempo!
Levantar-me foi boa ideia! Até deu para esquecer um bocado o barulho.
E, agora a reaquecer o corpo, tudo parece bater certo.
Os problemas acontecem. Toda as civilizações, melhor… Toda a humanidade vive de recorrências históricas.
Se este é um período negro? É, claro. Mas podemos dar a volta por cima. Como tantas vezes se deu, e se dará.
Eles, lá fora, vão perceber isso. E quem manda também vai perceber isso. As coisas vão mudar. O meu emprego vai melhorar as condições. A minha vida vai dar uma volta.
Talvez, até ela perceba que errou e volte para mim! Sim, isso pode acontecer. Eu estou aqui à sua espera. Crente que vai voltar a reparar em mim e nas atitudes certas que tomei.
Porque raio me sinto tão perdido? Foda-se! Fiz tudo bem. Agi sempre correctamente. Não percebo! Merda! Quero dormir!
Respira Artur. Respira. O mundo está em pantanas lá fora e tu estás a pensar nela? Sempre a pensar nela? Ela trocou-te! Escolheu o teu benjamim. Num momento em que deveria apoiar-te. Estar lá para ti. Ela fugiu logo para os braços dele! Nem te deu tempo de remendar as coisas! E tu agiste sempre para a proteger! Ela tem um filho. É dele. Foste traído. Pára de pensar nela e dorme, caralho!
Amanhã tenho que fazer a troca dos cd’s de gravação. Se não zelar por aquilo também ninguém se importa. É esquisito como uma central que alimenta toda uma cidade, uma verdeira peça estratégica, deixa que a segurança seja tão descurada.
Realmente, com tanto dinheiro lá investido, com esta turbulência nas ruas, a administração ter investido milhares na frota automóvel e manter o raio do sistema de vigilância no século passado… Paspalhos. É que nem reforçaram no pessoal. Só estou eu e o Pedro. E à vez. Se acontece alguma coisa a um de nós, a central fica completamente desprotegida. Porra! É que se me chamam para substituir o Pedro por qualquer motivo, ainda demoro uns bons quarenta minutos a chegar lá… E não há mais ninguém no imediato. Vão meter um funcionário administrativo na sala de segurança até eu chegar? É isso. Amanhã, se tiver tempo, vou elaborar um plano de contingência para qualquer eventualidade e falo com o Pedro na troca de turno a ver se ele concorda. Se estiver bem até o levo à administração. Não que me paguem qualquer coi…






Capítulo 2

A luz entra candidamente, conforme a porta se abre no quente e aconchegante quarto. Irradia uma cama preenchida por um enrugado cobertor que protege o corpo masculino, completamente nu. Pele humana e pelo artificial, misturados numa perfeita sincronia de protecção ao sonho que habita no subconsciente deste ser deitado.
Mas se a porta abre, é porque são duas as almas que agora partilham este espaço.
O doce cheiro, naquela suave pele coberta por uma camisa larga de homem que esconde a perfeição de um corpo feminino, rapidamente atinge a mesma dimensão de grandiosidade que a luz trouxera inicialmente à divisão.
Os passos são carinhosos demais para fazer o soalho tremer. Apenas levantam pequenas partículas de pólen depositadas no chão, pois este quarto faz fronteira com todo um colorido jardim, que está ainda semi-tapado pelo cortinado prestes a afastar-se em cada passo que aquele ser único, impossível de amar plenamente sem se viver eternamente, dá. Faltam quatro suaves passos… Três suaves passos. Dois suaves passos, um suave passo. Todos dados sem que o corpo deitado acorde.
O cortinado é afastado para um dia fantástico entrar, mas mesmo assim os olhos mantêm-se fechados. Terá que ser o toque daquela mulher perfeita, a acordá-lo.
Ela ajoelha-se junto à face dele e não sussurra nada de imediato. Fica imóvel. A guardar uma fotografia mental daquela cara a sonhar.
Ele não é lindo. Ele não é bom. Ele não é genial. Ele é normal. Completamente normal. Sem traços característicos. Olhos castanhos. Cabelo preto. Pele clara. Normal.
Tudo que o faz especial está no interior. Na pessoa honesta, pura, lutadora, idealista e única que também é. Na forma como ama e deixa-se amar pela mulher que finalmente estica-se, para carinhosamente tocar no cabelo dele.
Os espaços entre os dedos são rapidamente preenchidos com um terno deslizar da mão junto a uma raiz bem negra. O movimento é contínuo e reconfortante. Demais até, se o objectivo é acordar alguém.
Por isso é que a saliva ganha força nos lábios… E suavemente a voz expele doces palavras que começam o monólogo prestes a transformar-se em diálogo:
--
Cátia : Amor. Mor. Acorda. Está na hora. Abre os olhos.      
--
Um preguiçoso olho com remela abre e cria rugas na face dele. Mas a imagem… O cheiro... A luz... Um sorriso de felicidade é rapidamente o motor que liga todo o mole corpo para presenciar aquela paisagem divina.
Linda. De olhar aveludado e intensamente atento, cabelo dourado e marcadamente lustroso, lábios carnais e misteriosamente brilhantes.
Perfeita. De pele clara e magnificamente cheirosa, corpo fantástico e magicamente esculpido.
Única. Com uma personalidade ímpar: Genial, inteligente, simpática, trabalhadora, emotiva, apaixonada e todos os antônimos dessas palavras de um momento para o outro, tal é a charmosa tempestade que habita na sua alma.
A musa para tudo de bom que este homem é. A eterna paixão dele. A única capaz de o fazer levantar para as vinte e quatro horas mais importantes da vida de ambos: 
--
C: Anda. Está na hora. Hoje é o teu grande dia! Já tenho o teu pequeno-almoço preparado.
Artur: Olá!
C: Olá!
A: Amo-te!
C: Eu também te amo… Mas vou-te bater se não te pões a pé!
A: Então bate! Não saio daqui!
C: Já te preparei o pequeno-almoço. Tens a roupa toda engomada. O teu discurso está na mala. Acordei-te com muito carinho e cuidado. E estás a fazer-te de preguiça, mor?
A: Sim! Tens que me tirar daqui à força!
C: Anda lá!
--
Cátia levanta-se e começa a puxar-lhe o cobertor com um sorriso cerrado. Artur prende-se ao cobertor como se fosse um manto real.
Só que Cátia, com uma mistura de força e jeito, consegue puxar para si o espólio da preguiça. Fica a visão de um homem despido à sua frente…
--
C: Que bonito! Parvinho. Anda lá vestir-te!
A: Não! Tens que me tirar à força da cama!
C: Hoje é o teu dia Artur! Não podes chegar atrasado. Anda lá! Deixa-te de criancices! Não vou aí! Estás a deixar-me chateada agora!
--
Artur levanta-se rapidamente. Confronta rosto masculino com rosto feminino. Sorriso completo com sorriso escondido. Pele nua com tecido suave. Olhar intenso com olhar desconfiado. Lábios despertos com lábios trincados. Paixão com hesitação.
E prende-a a si rapidamente com a força de uns braços, até agora repousados.
--
C: Artur, arre! Não! Estamos atrasados.
A: Um beijo?
C: Já sei que se te beijo, tu vais querer mais. Não!
A: Um. Prometo. E vou vestir-me.
C: Um só.
--
Mas, um beijo nunca é só um beijo.
É o mecanismo que liga todos os outros sentidos.
É a lembrança que perdura no sabor dos lábios.
É o vírus que se alastra para o arrepiar da pele.
É o toque que encoraja os corpos a unirem-se mutuamente.
É o choque que deixa os órgãos num hiato momentâneo.
É o pavio para a intimidade ardentemente desejada.
É a primeira batida que sai dos sentimentos guardados nos corações de dois amantes.
Um beijo nunca é só um beijo…. São dois… São três... São quatro… São suaves… São deliciosos… São puros… São sedutores… São intensos… São o começo…
Os dois amantes percebem isso com a mesma rapidez que um relâmpago percebe que encanta os olhares indiscretos da humanidade ao rasgar o céu de forma visível na janela do quarto, nesse preciso momento.
Como o relâmpago, rapidamente a camisa é rasgada do corpo feminino, incapaz de suster o desejo de um homem possuído por uma paixão que o faz transformar-se num enorme pedaço de pele musculada, que anseia por tocar em todas as partes que unem a si um outro corpo também já despedido.
O descer dos lábios masculinos para perto de um ouvido feminino, que agora já só deseja ouvir gemidos, provoca veias salientes, cheias de paixão bombeada rapidamente por um coração que começa a ganhar a batalha a um cérebro prestes a perder objectividade:
--
C: Mor… É melhor… Melhor… Parar.
A: Sim. Daqui a nada…
C: Mor. Não temos… temp… Mo…
A: Xiuuuu…
--
A cama rapidamente volta a ser ocupada num salto de fé que estremece as molas.
Pelos dois.
Unidos como um só.
Primeiro ele. O animal que percorre o corpo dela com a asperidade arrepiante e excitante de umas mãos bem vincadas, e a humidade medida de uns lábios que se unem aos dentes para suavemente trincar os seios femininos, nos interregnos de uma língua incapaz de ficar quieta, tal é o sabor da suave e frutada pele desta mulher perfeita.
Primeiro ele. O animal que afasta as pernas dela com a força dos seus braços para descer beijo a beijo, toque a toque, a sua cabeça até à união de anatomicamente diferentes lábios. Os dedos juntam-se rapidamente, tal é a chama e a necessidade de toque. As cuecas dela desaparecem instantaneamente para um canto do quarto.
O barulho já não mais se vai basear em palavras devidamente conjugadas, mas sim em honestos gemidos de prazer.
E gemido a gemido cresce o desejo.
Primeiro ele. O animal sobe repentinamente os seus lábios de volta aos seios, de volta à boca dela. As pernas continuam afastadas. Mas agora separadas por um tronco másculo que começa a movimentar-se, como que perdido à procura de um ponto de união. É o músculo completamente erecto dele que encontra o encaixe perfeito.
E os movimentos começam a ser constantes.
E as línguas prendem-se uma à outra para abafar o barulho dos gemidos.
E a cama cria um som mecânico, demonstrativo da força com que a penetração é efectuada.
E o suor a escorrer pelo corpo dele demonstra que estes minutos, que mais parecem eternos segundos de prazer, são intensos.
E uma força suprema percorre o corpo dela.
Agora ela. A divindade que consegue fugir do encaixe, só para sorrir e virar em força um corpo duas vezes mais pesado que ela à sua mercê. Pois é a sua vez de usar o desejo em benefício próprio, com a sua boca a beijar ferozmente o salgado corpo masculino.
Agora ela. A divindade que com a língua deixa desesperado, mas curioso, o homem que a observa a descer pelo seu corpo.
Mas pára de repente, olha cerradamente e sorri maquiavelicamente para ele, antes de continuar a descida do prazer, só para o seu loiro cabelo tapar toda a erótica visão que ele teria no momento em que a mão dela agarra-o com toda a força.
Antes de abrir a boca e soltar a língua, mais um levantar da cabeça para que ele tenha a certeza que está a ver a mais bela mulher do seu mundo, com um olhar completamente fulminante para o seu frágil coração de animal.
O cabelo desta vez só tapa parte da visão, pois a cabeça afasta-se para que a língua tenha espaço para se mover e a boca abrir, para com movimentos suaves, juntas fazerem desaparecer todo o órgão masculino, deste homem que já só revira os olhos, tal é o prazer.
Agora ela. A divindade acha que chega de gozo dividido. Mostra todo o esplendor das suas formas com um elevar poderoso do seu corpo, e com a mão prende no seu interior a erecção que atinge uma dureza tremenda.
E a cama torna-se numa visão estonteante de um corpo a levitar sobre o outro numa clara sinfonia de sentidos despertos. Rangue, tal é o saltar de um sobre o outro.
Aquela figura divina dança presa ao animal com cada vez mais violência.
O seu rabo começa a serpentear incessantemente enquanto os seios criam uma vibração pelo corpo sedutoramente erguido.
A energia é demasiado intensa para durar muito mais tempo.
Os gemidos começam a sincronização.
O corpo dela desce para voltar a tocar o dele. As mãos de ambos agarram-se mutuamente com uma vontade arrepiante. Os olhares cruzam-se num rodopio extasiante. Os lábios retornam a sentir a saliva de ambos. Uns rápidos e finais movimentos…
A paixão é sentida como electricidade. Como um relâmpago. Como o primeiro beijo do dia…
Como o verbo amar é conjugado num último gemido conjunto.
Um beijo nunca é só um beijo.

08 março 2013

Paraíso (no Cap. IV de MESA 5)


Paraíso


Meu paraíso, procuro-te desesperado!
Encostas íngremes, caminhos traiçoeiros, falésias
mortíferas,
A um tropeção de distância.

Não te alcançar, deixa-me prosaicamente desolado.

Sem descanso, olho, tento, sigo.

Beijo nuvens, trovões e estrelas no sopé de cada
montanha ultrapassada.
Mas resgato-me no horizonte e caminho.

Deixo, à deriva, o vento comandar.
Sinto o seu empurrão em cada passada a ajudar-me a
alastrar este fogo interno,
Pelas planícies desérticas que refletem o luar.
Ao andar pela caminhada sagrada, também observo
a beleza desta natureza primitiva.
Flores exóticas, animais puros, rostos de uma terra
imaculada.

Tudo me parece novidade!
Olho-os com olhar de criança!
No entanto, mantenho-me objetivo!
Sigo em frente cheio de certezas!

Mas depois, paro para descansar, percebo...
Analiso velozmente e descubro...
Que a verdadeira razão da busca... É descobrir o que
quero.

Concluo portanto, que o paraíso perdido,
Não será somente um local sagrado,
Mas um rosto familiar que me atormenta.
Chamando-me no fim das forças ao seu encontro.

Já rendido à evidência da paixão,
Radicalizo o meu projeto, transformo-o,
Incuto-lhe a componente amorosa,
Vejo o meio-termo, no meu coração.

Acordo, então suado, perdido.
Olho para o lado e vejo-te.
Bela essência adormecida.
Protetora da minha lucidez louca.
Compreendo que me dás equilíbrio.
Para viver entre o sonho e o pesadelo.
Entre o sonho e a realidade.
Entre o sonho e o projeto.

Que projeto? Talvez de viver,
Pensando que te posso perder.
Rendido por não te querer perder.
Numa passagem tão simples, tão pura,
Como a noite passa para o amanhecer.

Tu abres os olhos, sorris.
Perguntas se estou bem.
Agarras-te a mim e esqueço,
Todas as questões criadas.
Das que surgem num pesadelo,
Sabendo que com o amanhã, tudo passou.

E... Aconchegas-me o dormir, num beijo.

Durmo nos teus braços.
A agradecer-te por seres minha casa.
Mostrar-me que o pesadelo passou.
Mostrar-me que o sonho chegou.
Perceber que pertenço aqui, ao paraíso!
Aqui adormecido, agarrado ao teu corpo.
Juntando as nossas almas, sossegado.

O meu paraíso não é o absoluto.
O meu paraíso é o teu amor.

19 fevereiro 2013

De Eloisa para Abelard


Nessas solidões profundas e celas horríveis
Onde a contemplação pesadamente pensativa mora
E a sempre refletiva melancolia reina
O que significa este tumulto nas veias inocentes?
Por que vaguear meus pensamentos para fora deste último retiro?
Por que meu coração sente seu já esquecido calor?
Ainda, ainda eu amo! - Veio de Abelard,
e Eloisa ainda deve honrar o nome
Querido nome fatal! Descanse sempre não revelado
Nem passe estes lábios selados em silencio sagrado
Esconda-o, meu coração -ou meu amor- naquele disfarce
Onde misturado aos deuses, a amada lembrança dele repousa:
O, não escreva, minha mão - o nome já aparece escrito - lave-o, minhas lágrimas!
Em vão, Eloisa chora e reza
O coração dela ainda dita, e sua mão obedece
Paredes implacáveis!
Suspiros arrependidos, e dores volutárias:
Vós rochas robustas!Que sagrados joelhos gastaram
Vós grutas e cavernas desgrenhadas com horríveis espinhos!
Santuários!Onde seus vigias de olhos pálidos mantêm as virgens
E santos pesarosos, aquelas estátuas, aprendem a chorar
Apesar de frio como você, imóvel, e adulto silencioso
Eu ainda não me esqueci tanto quanto uma pedra
Nada é divino quando Abelard parte
Ainda rebelde a natureza faz metade do meu coração resistir
Nem rezas nem jejuns, contêm este pulsar teimoso
Nem lágrimas, por anos, ansinadas a jorrar em vão
Logo que tuas cartas eu abro tremendo
Aquele nome bem conhecido acorda todas minhas desgraças
Oh nome para sempre triste! Para sempre querido!
Ainda respirado em sussurros, ainda conduzido por uma lágrima
Eu tambem tremo, onde eu me encontro
Alguns infortúnios perigosos seguem de perto
Linha pós linha meus olhos efusivos transbordam
Guiado por uma triste variedade de desgraças:
Agora aquecida em amor, agora murchando no teu florecer
Perdida em um convento de uma tristeza solitária!
Lá uma religiao severa apagou a chama indisposta
Lá morreram a besta da paixao, do amor e da fama
Ainda escreva, me escreva tudo, que eu possa juntar
Lamentos para teus lamentos, e suspiros em eco a ti
Nem adversários, nem sorte levam essse poder embora
E é meu Abelardo menos gentil que eles?
Lágrimas ainda são minhas, e essas não preciso poupar
Amor mas exige o que foi irradiado em rezas
Nenhuma tarefa mais feliz persegue esses olhos cansados
Ler e chorar é tudo que eles podem fazer agora
Então divida tua dor, permita esse alívio triste
Ah, mais que dividir, me dê todo o teu lamento
Os céus um dia ensinaram letras para alguns miseráveis
Alguns amantes banidos, ou algumas donzelas prisioneiras
Eles vivem, eles falam, eles respiram o que o amor inspira
Calor da alma, e fiel ao seus fogos
O desejo da virgem comunicado sem medo
Desculpe por corar, e derrame todo o coraçao
Apresse o macio coito de alma para alma
E um suspiro dos Hindus para os Polos
Vós sabes o quão inocentemente eu conheci vossa chama
Quando o amor se aproximou de mim sob o nome da amizade
Meu imaginário vos concebe em um tipo angelical
Alguma emanação da mente mais bela
Aqueles olhos sorridentes, tomando cada dia
Brilharam docemente com o dia celeste
Inocente eu olhei, o céu ouvia enquanto você cantava
E verdades divinas foram compostas por aquela língua
de lábios como aqueles, quais preceitos falharam?
Logo eles me ensinaram que não era pecado amar
De volta pelos caminhos do sentido do prazer eu corri
Nem desejei um anjo a quem o homem eu amei
Escuras e remotas as alegrias dos anjos eu vejo
Não os invejo, que os céus eu perca por vós
Quantas vezes, quando pressionada a casar, eu disse:
Amaldiçoes todas as leis menos as que o amor fez!
Amor, livre como ar, a vista das amarras humanas
Abre suas asas leves, em um momento voa
Deixe a riqueza, deixe a honra, espere a esposa.
Respeite o ato dela, e sagrada seja sua fama
Antes que a verdadeira paixão remova todas essas visões
Fama, riqueza, e honra!O que você é para o amor?
O deus do ciúmes, quando profanamos seus fogos
Aquelas incansáveis paixões inspira em vingança
E os convida a fazer mortais errados gritarem
Oue procura no amor por nada além de amar sozinho
Aos meus pés o grande mestre do mundo deve cair
Ele, seu trono, seu mundo, eu desdenho tudo!
Nem a imperatriz de César eu me dignaria a provar
Não, me faça amante do homem que amo
Se ainda houver outro nome mais livre
Melhor do que amante, me faça esse nome para vós!
Oh estado feliz!Quando um desenha a alma do outro
Quando o amor é liberdade e a natureza, lei
Tudo então é repleto, possuindo e possuído
Nenhum vazio suplicante deixado doendo no peito
Mesmo que pensamento encontre pensamento, antes parte desse lábio
E cada desejo quente floresce mútuo do coração
Isso com certeza é glória se há gloria nesse mundo
E uma vez parte de Abelardo e eu
Ai de mim, que mudança! que horrores repentinos levantam!
Um amante nu limitado e sangrando deita!
Onde, onde estava Eloise?Sua voz, sua mão.
Seu punhal, se opôs ao horrível comando
Bárbaro, fique!Aquele maldito ataque comprime
O crime foi comum, comum seja a dor
Eu não posso mais, por vergonha, por raiva contida
Deixe as lágrimas, e rubores ardentes falarem o resto
Você não pode esquecer aquele triste, solene dia
Quando vitimados deitamos aos pés de seu altar
Você não pode esquecer quais lágrimas aquele momento fez derramar
Quando, aquecida em juventude, eu me despedi do mundo
Enquanto com lábios frios eu beijei o véu sagrado
As templos todos tremeram, e as lâmpadas ficaram pálidas
Os céus quase não acreditaram nessa conquista
E os santos maravilhados ouviram minhas juras
Ainda assim, para aqueles altares assustadores enquanto eu continuava
Não na cruz meus olhos estavam fixados, mas em você:
Não na graça, na fé, amor era meu único pedido
E se eu perder vosso amor, eu perco tudo
Venha!Com vosso olhar, vossas palavras, alivie minha tristeza
Isto ainda resta para você conceder
Ainda neste peito me deixe deitar enamorada
Ainda bebo veneno delicioso de vosso olho
Ofegar em vosso lábio, e em vosso coração ser pressionada
de tudo que puder - e me deixe sonhar o resto
Ah não!Me ensine outras alegrias para estimar
Com o charme de outras belezas meus olhos parcialmente
se enchem de todo o brilho acima
E faz minha alma trocar Abelard por deus
Ah, pense pelo menos vosso rebanho merece vosso cuidado
plantas vossas mãos, e crianças vossas preces
Do mundo falso na juventude eles escaparam
Pelas vossas montanhas, selvas e desertos seguiram
Você levantou esses muros vazios, o deserto sorriu
e o paraíso foi aberto na selva
Nenhum orfão chorando viu os bens de seu pai
Nossos templos irradiam, ou roubam o chão
Nenhum santo de prata, dado por miseráveis moribundos
subornou a raiva do céu castigado
Mas tetos tão simples como a piedade poderia levantar
e apenas protestar com as honras de Marker
Nesses muros vazios barreira eterna de seus dias
Essas cúpulas cobertas de musgo com torres lotadas
Onde horríveis arcas fazem do meio-dia noite
E janelas turvas espalham uma luz solene
de vossos olhos um raio pacificador
E reflexos de glória brilharam por todo o dia
Mas agora nenhum contentamento veste a face divina
É tudo pura tristeza, ou lágrimas contínuas
Veja como eu tento a força das preces de outros
Mas porque deveria eu depender das preces de outros?
Vir a você, meu pai, irmão, marido, amigo!
Deixe tua empregada, irmã, filha irem
e todos esse nomes em um, vosso amor!
Os pinheiros escuros que se reclinam sobre as rochas
balançam alto, e murmuram para o vento oco
Os rios correntes que brilham entre as colinas
As cavernas que ecoam para os riachos rumorosos
As tempestades morrendo ofegam sobre as arvores
Os lagos que tremem para a brisa rodopiante
Nenhuma dessa cenas minha meditação socorre
ou acalma o resto da donzela visionária
Mas os bosques do crepúsculo e cavernas escuras
Corredores barulhentos, e sepulturas misturadas
Melancolia negra se assenta, e em sua volta joga
Um silêncio como que mortal, e um descanso temeroso
Sua presença obscura entristece toda a cena,
Sombreia toda flor, escurece todo verde
Afunda os murmúrios do dilúvio que cai
e respira um horror mais marrom na floresta
Aqui para sempre, sempre devo ficar
Prova triste do quanto um amante obedece
Morte, apenas a morte pode romper a última corrente
e aqui, ainda assim, minhas cinzas frias devem permanecer
Aqui todas suas fragilidades, todas as chamas resignarem
e esperar até que não haja pecado para misturar com o vosso
Ah deplorável! em vão suposta consorte de Deus
Confessa escrava do amor e de um homem
Acuda-me Céus! Mas de onde veio aquela prece?
Surgiu da piedade, ou do desespero?
Até mesmo aqui, onde repousa a esquecida castidade
O amor encontra um altar para desejos proibidos
Eu devia lamentar, mas não consigo fazer o que devo
Estou de luto pela amante, não pelo erro cometido
Vejo meu crime, que dói-me de queimadura à vista do próprio crime
Lamento antigos prazeres, e peço um novo
Agora de volta aos Céus, lamento minha última ofensa
Agora penso em ti, e amaldiçôo minha inocência
de todas as aflições já aprendidas pela amante
Esta é com certeza a ciência mais difícil de se esquecer
Como vou me libertar do pecado, mantendo o sentido
e amar o pecador, e ao mesmo tempo odiar o pecado?
Como separar o adorável! objeto do crime do próprio crime
Ou como separar penitência de amor?
Tarefa sem igual!Uma paixão pra se desistir,
Para corações tão infligidos, tão lancinados, tão perdidos como o meu
Antes que uma alma recupere seu estado de paz
Quanto deve ela amar, odiar!
Quanto deve experimentar a esperança, o desespero, a indignação, o arrependimento
A contrição, o desdém - faça tudo mas esqueça
Mas deixe os Céus cuidarem disso, tudo de uma só vez quando surgirem
Não tocado, mas sim tomado; não desperto, mas inspirado!
Oh venha! Oh ensina-me a essência do auto-controle
Renuncio meu amor, minha vida, eu mesmo - e você
Vou preencher meu coração somente com Deus, pois somente ele
pode te substituir
Quão feliz é o imaculado salário da sacerdotisa de Vesta!
O mundo a esquecendo, esquecida pelo mundo.
Eterno brilho de uma mente sem lembranças!

Todas as preces aceitas, todas as tentações abandonadas;
Trabalho e descanço, mantidos em turnos iguais;
"Sonâmbulos obedientes que podem acordar e lamentar"
Desejos fomentados, afetos sempre correspondidos
Lágrimas que deleitam, e suspiros suavemente endereçados aos Céus
A graça a revolve com serenos lampejos,
E anjos murmuram-lhe sonhos dourados.
Pois para ela a eterna rosa do Éden floresce,
E asas de serafins exalam perfumes divinos,
Para ela o esposo prepara o anel de noivado
Para ela virgens alvas cantam o himeneu
Ela se desfaz ao som das arpas celestiais
E derrete às visões do dia eterno.
Por mais distantes sonhos minha alma pecadora vaga
Muitos outros arrebatamentos, de gozo profano
Quando do término de cada dia triste e melancólico
Fantasia restaura o que a vingança me roubou
Então a consciência adormece, libertando a natureza
Minha alma inteira, liberta, avança em tua direção
Oh maldita, caros horrores de uma noite em claro
como a clara culpa exalta o extremo gozo!
Fazendo com que demônios removam os grilhões,
E me fustiguem-me com todo dia de paixão
Eu te ouço, te vejo, exalto sobre todos seus encantos
E ao redor de teu espectro envolvo meus braços num abraço apertado
Eu acordo - e nada mais ouço!Nada mais vejo!
Teu espectro me escapa, tão desagradável quanto você
Eu chamo em altos brados; não sou ouvido
Estico meus braços sem ti; ele desliza para longe de mim
Querendo sonhar isso de novo, fecho com vigor meus olhos;
Ó doces ilusões, doces decepções, venham!
Droga! não mais - parece-me que vagamos
através de tristes escombros, e lamentamos nossas penúrias
Onde ao redor de uma torre esmaecida pelo tempo, hera doente espreita,
Pedras no piso da torre inclinam-se, balançando, sobre o precipício
De repente você se materializa, aparece triunfal através dos céus
Nuvens se amontoam, ondas rugem, e ventos surgem
Eu solto uma gargalhada, é sempre o mesmo resultado
E acordo de volta a todos os pesares que havia deixado pra trás
Para ti as deusas do destino, em demasia brandas, ordenam
Uma suspensão gélida, tanto do prazer como da dor
Tua vida uma longa mansidão morta de repouso estabelecido
Sem pulso que agita, sem sangue que dá vida
Calmo como o mar, antes dos ventos saberem inflar
Ou o Espírito Santo ordenar movimento às aguas
Suave como os devotos de um santo, perdoados
E gentis como as primeiras luzes do paraíso prometido.
Venha Abelardo! Que tens a temer?
A tocha de Venus não está acesa para os mortos
A natureza está em cheque; A religião desaprova;
Ainda que a arte esfrie - Eloisa ainda ama
Ah chamas sem esperança, ainda resistindo! Iguais àquelas que queimam...
...para guiar os mortos, e aquecer o receptáculo estéril
Que cenas vejo para onde quer que meus olhos fitem?
As caras idéias, onde eu vôo, persigo,
Elevem-se na mata, antes mesmo do altar se erguer
Permeia, mancha minha alma, mostra-se provocantes diante de meus olhos
Desperdiço minha primeira vigília em suspiros por ti,
Tua imagem se interpõe entre meu Deus e eu
Tua voz eu contemplo em todos os hinos
A cada conta do rosário eu derramos uma suave lágrima
Quando do incensário nuvens de fragrância se elevam,
E órgãos num crescente elevam o espírito,
Um único pensamento acerca de ti põe os relicários a voar,
Padres, velas, templos, nadam diante de mim
Em mares de chamas minha alma em fuga é mergulhada,
Enquanto altares brilham, e anjos vibram.
Enquanto me deito aqui, prostrada, em humilde pesar
Delicadas, virtuosas gotas se acumulam em meus olhos,
Enquanto eu rezo, tremendo, no pó eu rolo,
E uma crescente graça está se criando em minha alma:
Venha, se tem coragem, tão encantador como tua astúcia!
Desafia o próprio Céu; lute pelo meu coração;
Venha, com um relance daqueles olhos enganadores
Apague cada idéia brilhante dos céus;
Retome aquela graça, aquelas melancolias, aquelas lágrimas;
Retome aquela penitência inútil e orações;
Agarre-me, rapte-me da graça continuada;
Ajude os demônios, e arranque-me de meu Deus!
Não, voe comigo, tanto quanto de pólo a pólo;
Eleve uma montanha entre nós!Um oceano inteiro apareça!
Ah, não venha, não escreva, não pense, pelo menos uma vez, por mim,
Nem compartilhe nem mesmo um repentino pedaço do que eu sinto por ti
Renego teus juramentos, desisto de tuas lembranças
Esqueça, me renuncie, deteste tudo o que me é relacionado
Olhos bonitos, e olhares tentadores os quais ainda vejo!
Por muito amado, idéias adoradas, a tudo isso 'adieu' adeus!
Oh serena graça!Oh virtude tão bela!
Divino limbo de atenções irresponsáveis!
Esperança renovada, graciosa filha do céu!
E fé, nossa recente imortalidade!
Entre, cada convidade gentil e amigo;
Receba, e embrulhe-me em descanso eterno!
Veja, em sua clausura a triste Eloisa se esparrama,
Escorada em alguma tumba, uma vizinha aos mortos.
Cada brisa parece-me um chamado sobrenatural,
E mais do que ecos falam ao longo das paredes.
Aqui, enquanto observei as lâmpadas a se apagarem,
Além do altar eu escutei um som tenebroso.
"Venha irmã, venha!" ele disse, ou pareceu dizer
"Teu lugar é aqui, triste irmã, saia daí!
Uma vez, como tu, eu tremi, lamentei, e orei,
Ora uma vítima do amor, agora uma santa serva:
Mas tudo é calmo neste sono eterno;
Aqui o pesar se esquece de grunir, e o amor de lamentar,
Até mesmo a superstição perde todos seus medos:
Pois Deus, e não o Homem, absolve-nos de nossas faltas aqui."
Eu vou, eu vou!Prepare suas doces reverências,
Palmas celestiais, e suas flores sempre desabrochadas.
Lá, onde pecadores podem encontrar descanso, eu vou,
Onde as chamas se purificam em colos de brilho de serafins:
Tu, Abelardo!O último e triste salário da labuta,
e suaviza minha passagem para os domínios do dia;
Veja meus lábios tremerem, meus olhos revolverem nas órbitas,
Absorva meu último suspiro, e segure minha alma errante!
Ah não - em vestes sacras deves ficar,
A trêmula vela sacra em tuas mãos,
Apresenta o crucifixo aos meus olhos postados ao alto,
Ensina-me de uma vez, e aprende comigo a morrer.
Ah então, tua uma vez amada Eloisa veja!
Então não será uma crime fitar-me.
Veja o rubor de minha face esvaecer-se!
Veja o último lampejo morrer em meus olhos!
Até que todo movimento, pulso e respiro cessem;
E até mesmo cesse meu amor por Abelardo.
Oh morte, eloqüente suprema! Você somente nos prova
nossa afinidade ao pó, quando o nosso amor é terreno
Então também, quando o destino corroer tua beleza,
Isso é a causa de toda minha culpa, e também de minha satisfação
Que num transe extasiante todas suas nostalgias se afoguem,
Desçam nuvens claras, e anjos observem-na a girar,
Dos Céus abertos brilhem fulgores de glória,
E santos te abracem com amor semelhante ao meu
Que uma morte tranqüila una cada nome infeliz,
E conecte meu amor eterno à tua fama!
Então, após eras, quando todos meus infortúnios estarão findos,
Quando este coração rebelde não mais bater;
Se por acaso dois amores errantes se encontrarem
nas parede brancas do Paráclito e amanheceres prateados,
Sobre pálido mármore eles encontram suavemente suas cabeças,
E tomam-se suas lágrimas derramadas, um a de outro;
Então digam tristemente, com pena mútua,
"Oh, que nós nunca amemos como estes amaram!"
Do pleno coro, quando altas Hosanas surgirem,
E encherem os relicários de sacrifício horripilante,
No meio dessa cena, se algum olho sereno
notar de relance, na pedra onde nossas gélidas relíquias repousam,
A própria devoção deve roubar um pensamento dos Céus,
Uma lágrima humana correrá, e será perdoada.
E claro, se o destino provocar em algum futuro poeta
Similares e tristes pesares, iguais aos meus,
Condenando-o a anos inteiros de solidão dignos de pena,
e ídolos que ele não deve mais venerar;
Se assim acontecer, quem assim tanto ama, tão bem;
Contem-lhe nossa triste e delicada estória;
Os infortúnios bem declamados tranquilizarão meu fantasma atribulado;
Ele poderá no máximo descrevê-los, aquele que os sente...

Alexander Pope, 1717