29 dezembro 2013

Enorme

Procurei pela minha história no reflexo de um espelho quebrado.
Imagem partida e imperfeita, praticamente destruída.
Pedaços grandes, médios, pequenos, minúsculos.

Impossível saber se estava um sorriso posto.
Inimaginável perceber se o olhar era firme.
Indecifrável entender se a postura tinha confiança.

Quem era a pessoa que estava ali?
Quem era a figura que se apresentava?
Que se passou com o espelho?

Partiu-se porque a vida nunca está inteira para um devaneador.
Porque cada sonho e cada momento são um pedaço único.
Pedaço grande, médio, pequeno, minúsculo.

Uma vida completa não se faz de uma só imagem.
E todas podem ser vistas de maneiras diferentes.
Mas a que mais perdura é a que não precisa de se ver.

Assim, a única certeza era conhecer-me e entender os muitos pedaços.
Saber olhar para o espelho sem medo do que poderia lá não estar.
Resgatar-me no momento em que me iria virar e correr…


Estava atrasado para mais um pedaço minúsculo, mais uma história…

22 novembro 2013

No Bom Caminho... Só os jovens podem quebrar!

Demorei meses! Meses! Nada fazia sentido! A história estava toda lá, mas com qualquer coisa em falta... O abanãozinho no coração...
Depois voltou uma frase que não ouvia vai para muito tempo com o significado que sempre lhe dei quando mais precisei... "Eu nunca pensei sobre amor, quando pensava sobre casa." E fez-se luz!
Dois dias, doze páginas. Parece e é pouco. Mas é o suficiente para finalmente acabar o capítulo que dá toda a esperança do mundo a um homem, para o destruir a partir daí... Por saber o que se vai passar a seguir é que foi tão difícil encher uma personagem de esperança... É assim mesmo. As minhas personagens principais estão destinadas a terem quase tudo e conseguirem sempre nada. Mais não digo. Apenas o que ficará para impressão:

"E sorrir à distância, com um sentimento de pertença no dia em que finalmente tudo mude. Por sabermos que foram as nossas falhas a limar este caminho… Mas ele já não é o nosso... Já lutámos, sofremos, perdemos e pagamos. Caro. Demasiado. Muitos anos afastados sem esperança neste reencontro. Chega! Anda... Agora, sejamos espectadores atentos, apenas… Anda.

Anda meu amor! Por favor! Anda… Anda! Liberta-te! Porque… Já não somos sonhadores! Não aguentámos outro erro, outra desilusão, outro adeus. O tempo joga contra nós, e agora: O tempo é deles! Só deles! Afinal, só eles... Só os jovens podem quebrar…"

03 novembro 2013

Sabem porque gosto dos Joy Division?

Sabem porque gosto dos Joy Division?
Porque é a imperfeição perfeita. Porque é tudo que poderia ser e não foi. Porque é o fatalismo realista. Porque é o cinzento demasiado escuro.
A música dos Joy Division faz-me querer que existe uma ligação directa, mas distante, entre um individuo que faz de conta que é o vocalista e uma banda que faz de conta que está a tocar com ele.
A letra, a voz - Ian, vive uma anunciada beleza lírica destrutiva e fatal, sempre consumada na última palavra. Uma luta constante por um controlo de sentimentos que nunca poderão ser contidos e que vivem ao ritmo de uma qualquer batida.
A banda, a melodia – Joy, vive numa Manchester suja, chuvosa, esquecida. Não se preocupa que a batida pareça desformada, mas sim que haja a transmissão do momento, do segundo, da realidade, da atmosfera em que essa batida foi tocada.
A letra é a anarquia que vive dentro de um génio. A voz é a desordem que confirma as cores para que estas transmitam somente um pesado cinzento, amordaçado pela certeza de que algo mais negro está a chegar.
A banda é a amizade de uma mesma condição social. A melodia é o produto de uma juventude adiada que caminha junta sem saber bem para onde, apenas com a certeza que existe um sentimento comum de que o caminho certo é seguir aquela voz.
Também gosto deles porque socialmente, economicamente e culturalmente a minha cidade (hoje diria mesmo o meu país) é muito parecida com a Manchester industrializada e sem alma que procura um simples significado nas entrelinhas para existir mais um dia.
E porque o barulho que oiço dos meus amigos é imperfeitamente original, como aquele dos Joy Division.
Porque a responsabilidade de não perder o controlo às vezes provoca em mim uma alma morta.
Porque o amor que nos separa sabe que tem de ser desta vez… Esta cerimónia é desordem, é amor.
Puro, bruto, inacabado, louco, descontrolado.
Joy Division, é a história daquilo que pode ser melhor em tudo, mas contenta-se por ser para sempre... Uma história inacabada.
Genial? Brilhante? Fantástica? Única? Transcende? Berrante? Mais adjectivos?
Suja? Ruidosa? Obscura? Chuvosa? Fria? Adiada?
Não. Simplesmente... Uma história inacabada.
E, no mesmo momento em que o mundo se rendeu ao talento de uma banda cujo único objectivo era existir para ver nascer mais um dia, Ian escreveu uma letra onde não usou papel, caneta ou palavras… Porque escreveu no nosso imaginário o mito Joy Division.
E, depois, friamente, como resposta ao desertar de Ian, a banda, a melodia, decide escrever uma outra história como se fosse uma nova ordem para renascer que pairou nas suas cabeças como uma tentação pelo ritmo e a cor depois de uma segunda-feira triste, porque a vida continua…
Cheia de histórias inacabadas. Cheia de promessas que nunca passarão disso. Cheia de sonhos que nunca se materializarão… A vida continua.

P.S.: Quiz – Quantos citações fiz a músicas dos Joy Division (também New Order) neste texto?



01 novembro 2013

Só os Jovens podem quebrar (Parte solta)

“O quarto cheira a casa. A casa!
Não no sentido de odor, fragrância, perfume… Não é corporal.
Não são eles ali deitados. Nem a roupa da cama, suada por eles. Ou as farpelas espalhadas pelo chão… Não é tecido.
Não é a madeira dos móveis. Tão pouco é o plástico electrónico. Sequer é o vidro das luzes que os iluminam… Não é fabricado.
Cheira a casa porque eles estão juntos. Tudo é familiar. Tudo é memória. Tudo é fácil. Tudo faz sentido. 
De novo! De novo. De novo…
São eles.
Juntos são os alicerces que suportam o peso do passado. O cimento que estrutura o espaço do presente. A tinta que dá cor a um futuro.
Cheira a casa!
E um novo acordar é o recheio que decora o momento…
O primeiro reencontro… Cheio de medo… Tudo parece perfeito demais… Fácil demais. Seguro demais. Até para quem partilha o mesmo tecto depois de uma longa travessia.
Ambos estão demasiado presos à ideia de que o outro, do nada, dirá algo que afecte profundamente as fundações deste recomeço...
Os olhares são de crianças aventureiras.
Os sorrisos de adolescentes decididos.
Os suspiros de adultos conscientes.
Os silêncios de idosos cautelosos.

Nenhuma palavra é ouvida mas tudo é dito…”


29 outubro 2013

Isto não é um desabafo. É uma conversa com a minha mente e contigo do porquê de gostar cada vez mais de uma citação:

Eu gosto muito de ler - o complexo livro de minhentas páginas, ou a simples notícia de futebol. Adoro ouvir - o som articuladíssimo de uma música intemporal, ou a simpática voz de uma pessoa desconhecida na rua. Amo ver – o filme em que o mais desalmado olhar lacrimeja, ou as sonoras cores que o céu produz num dia de primavera. Vivo para acreditar – naquilo que a imaginação consegue conjugar entre a ficção e o real, ou a semântica que as palavras do dia-a-dia podem ter em nós.
Não me é nada estranho ler, ouvir, ver, viver histórias de desapego pela sociedade em que vivemos – crise e desemprego, sonhos desfeitos, solidão social, emigração forçada, amizades interrompidas, amores distanciados, vidas indefinidas…
É fácil perceber que o cinzento está a transformar-se num negro vincadamente árido, desnudado e frio.
Mas não o temo. Começa a nascer em mim um novo acreditar.
Se li, se ouvi, se vi, se vivi… Então criei ideias, pensamentos, opiniões, decisões, atitudes, valores, realidades. Quero aplica-las. Não me conformo mais com o menos, o razoável, o mediano, o consenso do intermédio.
Quero mais! Quero o sonho! Quero aquilo que desejo!
E cada vez mais me surpreendo! Pois não acredito nem quero a felicidade do dinheiro, carros, casas, carreiras… Sei que são mecanismos artificiais para sobreviver, até um acordar para realmente viver, que se fará num piscar de olhos, que pode ser amanhã, ou no último dia da nossa existência… Mas far-se-á. Porque um dia teremos que realmente viver!
E cada vez acredito mais que nós, crianças irresponsáveis que atrevemo-nos a sonhar para lá da idade dos sonhos, que temos 20 ou 88 anos, e que todo um conjunto de factores decidiu nos colocar neste país, neste momento, nesta decisão, não queremos que nenhuma outra geração alguma vez venha a questionar se querer mais, querer o sonho, querer aquilo que se deseja, é verdadeiramente possível aqui, em casa!
E esse acreditar cresce! E cresce em mim! E cresce em ti! E cresce na sociedade!
Nós estamos a travar a nossa própria guerra civil. E é a guerra da cor.
Se nos deixamos derrotar, o cinzento será mesmo negro, e os sorrisos nunca mais se vislumbrarão.
Se lutarmos, cada um da maneira mais pura que sabe, ora com um grito de protesto, um slogan de indignação, um “não” audível, uma desconstrução de uma ideia pré-concebida na sua moral, uma simples aceitação da diferença por respeito, uma crença na esperança em não baixar os braços, uma sugestão criativa e inovadora… Uma simples palavra de alento dita apenas como desabafo… Talvez o cinzento se misture. E venha o verde, o vermelho, o azul, o amarelo…
E as cores retornem para nunca mais nos abandonar!
E a pintura criada seja a perpetuação de um sentimento de união!
E a ficção consiga conjugar-se com a realidade!
E as palavras se transformem em acções das quais nos iremos orgulhar!
Pelo passado, pelo presente e pelo futuro de quem ainda ousa sonhar!
E ele, Madiba, que um dia disse "Às vezes cabe a uma geração a obrigatoriedade de ser genial... Vocês podem ser essa geração!” se orgulhe de nós!

Então. E quê? Sejamo-la! Por ele! Por nós! Pela cor que queremos dar aos nossos sonhos!

22 outubro 2013

Onde a campainha não tocou

Uma viagem que afinal nunca sucedeu.
Promessa redentora esquecida da memória.
O tempo passou sem gerir a história.

Ele não se comparava com ninguém conhecido.
Uma mistura de personalidades num fato clássico.
Preto como o escuro do quarto antes da campainha.

Som mágico e trágico.

Ela abriu a porta de olhar sonolento.
Ela não esperava sentir o momento.
E o medo venceu todo o resto.
Manchou o olhar esverdeado com distância.
Marcou o rosto suave com arrogância.
Mascarou o significado das palavras com displicência.

Aconteceu uma vitória do desapego.
Ela sabia que o afecto também ia viajar.
Ele perdeu-se em desculpas sem se explicar.
E a oportunidade passou a silêncio de um segredo.

E assim ficou, oculto sem recordação.
Mas algo continua à procura de explicação. 
O relógio continua a contar.
O tempo hiperboliza os quadros. 
O desarrufo anuncia um arrebatamento.

Ela reabriu a porta de olhar enternecido.
Ela ansiava pelo instante perdido.
E a redenção era momento sentido.
Manchou o olhar esverdeado com lembrança.
Marcou o rosto suave com esperança.
Mascarou o significado das palavras com cobrança.

E a decisão que nunca aconteceu, acontece por acontecer.

Onde o tempo não acaba.
Onde a memória se adapta.
Onde as princesas são rainhas.
Onde as flores são protegidas.
Onde as prendas são recebidas.
Onde as alegrias são vividas.
Onde a campainha tocou.
Onde a porta abriu.
Onde ele apareceu.

Onde o sonho é verdade.

Agora princesa, não abras a porta.
Pensa em tudo como uma afronta.
Porque o medo venceu sempre.
E o passado não alimenta o presente.
Amanhã tudo terá que recomeçar.
E a campainha nunca tocou.
A viagem nunca aconteceu.
O fato preto era algo para odiar!

18 outubro 2013

E o dia nasce

Uma história de crianças perdidas.
Um destino traçado por memórias esquecidas.
Um caminho qualquer sem rumo definido.
Um momento que não chegou a ruído.
Mais um dia normal de indiferença.

Cabelo solto e brilhante. Olhar adocicado pela luz.
Sorriso ternamente reluzente. Toque indecisamente quente.
Ela era assim no passado.

Inquietação no movimento. Força perdida na voz.
Suor na frigidez do silêncio. Incapacidade de comunicar.
Ele era assim no passado.

Mas ela hoje acordou.
Mas ele hoje já não está.
Mas a música não acabou.
Alguém a vai cantar.

E a mudança vai gritar por ele.
E as peripécias suceder-se-ão.
E o reencontro acontecerá.
E o cruzamento decidirá.

O conto de fadas contado pelo diabo.
A epopeia que não consagra heróis.
O espectáculo sem pano de fundo.
A dança sem música.
O adeus sem olá.
A simplicidade da incapacidade.
O medo do medo.

A porta fecha com a escuridão da noite.
E o diabo sorri.
E toda a gente aceita.

O cinzento que passa pacientemente para negro.
A voz que não emite a ternura por palavras.
A memória que se apaga no fechar do olhar.
A despedida que se faz sem conseguir sonhar.

Perdeu-se tudo com a escuridão da noite.
E o diabo ganhou.
E toda a gente esquece.

Mas lá fora chove. E troveja. E existe ruído.
O céu abre para revoltar espíritos.
O vento transforma-se em tempestade.
Não se pode dormir! Renasce um acreditar!

O conforto da casa deixa de ser solução.
As amarras da distância tornam-se improvisos.
As pingas purificam a passada acelerada.
O desejo transforma-se em chama com o frio.
E a porta é a sirene que não deixa o pesadelo instalar-se!
O reencontro é agora.

E a mudança acontece por ele.
E o olhar faz acreditar.
E o reencontro é o presente.
E o cruzamento é só de um sentido para o futuro.


E o dia nasce! E ambos brilham como um só!

19 setembro 2013

Bem... Domingo já cá não estou em Portugal... Aconteceu o que previ. Até breve!

Quando me pediram para escrever um texto sobre o meu percurso profissional e como este percurso se enquadrava na actual conjuntura do país, a resposta foi logo “Sim. Sem problema”.
Contudo, depois pensei o que é que poderia escrever que não fosse uma infeliz mas completa banalidade, perante os dias em que vivemos.
Dizer que sou da geração mais qualificada que este país teve a capacidade (intelectual e financeira) de formar? Dizer que sou da geração cujos sonhos e expectativas foram colocados nos píncaros (não só devido ao constante crescimento do país como das suas oportunidades)? Dizer que sou da geração onde os instrumentos de comunicação são tão abrangentes e universais que o mundo é a minha nova casa?
Isso já todos nós sabemos. Como sabemos que tais constatações, pouco ou nada, tiveram de impacto na forma mais tradicional de se obter emprego em Portugal.
Infelizmente o que não sabemos é que existe algo em muitos de nós, da nossa geração, que é muito mais forte do que o dinheiro, a ambição profissional ou os títulos académicos honoríficos.
Existe uma extrema convicção de agradecimento. Um enorme sentido de pertença. Um especial sentimento de ser português.
Portugal deu-me família e amigos. Deu-me ruas e locais. Deu-me memórias tristes e alegres. Deu-me a oportunidade de estudar. E deu-me a capacidade para trabalhar.   
Sim. Não sendo dado a religiosíssimos ou espiritualismos, devo confessar que sou dado a uma verdade universal – quem me fez bem, merece o meu respeito e, pelo menos, a tentativa de retribuir.
E é por isso que, mesmo estudando com atenção a evolução da crise financeira de 2008 para a actual crise económica…
Mesmo sabendo que um novo paradigma de ordem mundial estava para surgir…
Mesmo sabendo que a competência de todos os políticos juntos para compreender e antecipar concertadamente planos de contenção para os males que surgiriam a curto-prazo era zero e teriam consequências nefastas a médio e longo prazo (pois em 38 anos de democracia, ainda não encontrámos uma geração de políticos capazes - e como as juventudes partidárias estão formatadas segundo a geração que as antecede, não podemos esperar uma boa geração nos próximos tempos) …
Optei por deixar enganar-me pelo coração (quando a minha cabeça já alertava para estas dificuldades há muito tempo) e acreditar que era possível prosperar em Portugal apenas com as minhas capacidades.
Daí, este texto nada mais é de que uma enorme “mea culpa” por ser ingénuo e honesto num país onde só prospera verdadeiramente quem tem a fantástica capacidade de passar entre as pingas da chuva devido à acefalia do seu carácter.
Não me entendam mal. Se um dia estiver extremamente necessitado, também eu terei que moldar o meu pensamento e sentido de honra, adaptando-me aos actuais meios de obter remunerações condignas.
Mas também não me entendam muito mal. Nesse dia, parte de mim morrerá. Será a parte em que estou agradecido a Portugal por me ter dado ferramentas e não igualdade de oportunidades.
Mas também não me entendam extremamente mal. Em vez de vender a minha alma, comprarei uma passagem de avião.
Daí (num aparte), olhando para o fluxo migratório dos nossos jovens, vejo que emigram, e apesar de abandonarem o país, são os melhores portugueses, porque aguentaram até ao momento em que o futuro era hoje e os sonhos não se realizariam no país que amavam. Pois, para muitos deles, tal como eu, os estudos também criaram a ideia de liberdade, igualdade, fraternidade.
A estes só umas palavras simples: mesmo que a vontade de voltar aperte muito no vosso coração, não se esqueçam que se for para voltarem para um trabalho cujo principal perfil seja subserviência, então não voltem, pois só mais destruído e infeliz ficará o país e a vossa alma. Se for para voltar porque acreditam e sabem que vão ser respeitados como profissionais íntegros e capazes, então voltem e redescubram a alma, a raça e a vontade de vingar como portugueses.
Falando de mim, pois era esse o objectivo e o devaneio já passou...
Como sugeri nas linhas acima, acredito nas minhas capacidades.
Sei que sou um excelente profissional na minha área, ou todos os empregos por onde passei não tivessem sido executados com a maior da qualidade e profissionalismo (muitas vezes executados de forma muito melhor do as que pessoas com imensos anos de casa e proporcional ordenado – talvez daí não ter ficado mais do que o contrato previa, porque deve ser mais incómodo trabalhar com alguém capaz ao lado, do que um coitadinho que espirra graxa de sapato por cada acção que faz, mandatado pelo partido A ou B).
Sei que tenho espírito, ética e integridade fortes (ou não estaria aqui a escrever isto com perfeita consciência e medindo as palavras a utilizar).
Sei que preparei-me financeiramente, enquanto trabalhei, para uma travessia no deserto durante algum tempo, neste país que amo.
Sei que se tiver de começar do zero no mundo laboral, desde que tal não afecte a minha integridade, não me importo de começar como estagiário, recibos verdes, ordenado mínimo, como trolha, cortador de relvas, técnico ou sei lá o quê.
Mas sei… Sei muito bem… Sei também como ninguém que… Se a humildade da minha parte em refazer-me como profissional para adaptar-me à competitividade do mercado laboral actual (coisa que dava pano para mangas como tópico de discussão, visto que considero não ser uma boa solução a médio-prazo a contínua desvalorização das remunerações do trabalho e os vínculos precários) não for proporcional à mudança que este país precisa a curto-prazo, e voltar a ver os mesmos casos, de pessoas incapazes e moralmente abomináveis a dividirem entre os seus contactos, os empregos destinados aos mais capazes da minha geração…
Sei que tenho guardado para o fim, uns euros para viajar numa low-cost e oferecer tudo que tenho por quem aposte em mim (e, sem ser futurologista, tenho quase a certeza que o meu “saco vai encher” e esse dinheiro será utilizado, visto Portugal ser um país de brandos costumes) …
E, quando esse dia chegar… Quem ficar por cá a destruir o capital humano fantástico que a democracia trouxe… que arranje outro cortador de “relvas”, outro tocador de “cavaqu”inho, outro caçador de “coelho”s, outro agente de “seguro”s…

Barcelos, 2012-10-30
Magno Alexandre Neiva

P.S.: Mas se é para a sociedade civil acordar, também convém reavaliar se será pertinente manter o “Secret Story” como líder de audiências e não programas de informação. E, já agora, se esses programas de dita informação, também não possuem agendas escondidas…
Talvez o melhor seja mesmo as pessoas começarem a refugiarem-se de volta aos grandes livros de pensamento económico, social, político e filosófico. Afinal de contas, se somos a geração mais instruída, temos a obrigação de aprender com os clássicos do passado, em vez de acreditar no que um comentador comenta e no que um político diz… pois são pagos para isso.

Enquanto pensar livremente… Ainda não é alvo de lápis azul. 

27 agosto 2013

Manta da vida


Reconhece-me no caminho de casa.
Alegra-me no rodar da fechadura.
Prende-me no subir da escadaria.
Não se deve desperdiçar a eternidade do momento.

Encosta-me na força da parede.
Ilumina-me no escuro do quarto.
Aquece-me no frio da cama.
Não se pode suster a eternidade do momento.

Sente-me na hora da paixão.
Resgata-me no início do sonho.
Despreza-me no acordar do dia.
Não se pode acreditar na eternidade do momento.

Sorri-me no silêncio do adeus.
Escreve-me no papel da memória.
Perde-me na recordação do olhar.
Não se pode sobreviver à eternidade do momento.

Chora-me no aceitar da perda.
Festeja-me no fim do sentimento.
Ama-me no recomeço da vida.
Não se pode esquecer a eternidade do momento.

Reconhece-me. Alegra-me. Prende-me.   
Encosta-me. Ilumina-me. Aquece-me.
Sente-me. Resgata-me. Despreza-me.
Sorri-me. Escreve-me. Perde-me.
Chora-me. Festeja-me… E,
Ama-me na eternidade do momento.



12 julho 2013

Só os Jovens Podem Quebrar (início do Cap. III)

Capítulo 3

06.45 - Quarta-feira, 15 de Novembro de 2012:

O despertador acorda a radio com um dos hits do momento…
“When food is gone you are my daily need.
When friends are gone.
I know my savior's love is real. Your love is real
You've got the love…”
Mas a noite foi demasiadamente mal passada para a mão não espetar uma valente chapada no botão de “Snooze” e amor ser a última palavra proferida.
Podiam ser tantas outras palavras. Tantas outras músicas. O trânsito. As notícias. Não. Um dia mau parece começar. Um igual ao de ontem? Pior? Melhor? Não interessa muito… Os dias de cão não acabaram para mim.
O meu nome é Artur Ellis. Trabalho dez horas por dia numa central eléctrica! E é horrível! Um trabalho de merda! Tenho que acordar todos os dias neste t-zero nos subúrbios desta cidade semidestruída! E todos os dias a esta hora de merda! E nem o radio sabe escolher uma música menos má…  
Tenho trinta e três anos e não sei que posso fazer para a minha vida ser melhor.
Sento-me no balcão de uma pseudo-cozinha com vista para a sala, porque metade dela é mesmo a sala. Nem ligo ao facto de a loiça estar a se acumular de forma preocupante desde que tenha sempre uma malga e uma colher para os cereais mais intragáveis e baratos que um supermercado possa vender, serem regados por um leite de soja – obrigatório devido à minha intolerância à lactose. Merda, também se aplica ao pequeno-almoço.
Hora de me vestir. A merda do fato-macaco castanho cor de merda. Nem sei porque me queixo dele se é uma escolha fácil e que não complica a manhã. Mas é uma merda…
Higiene pessoal é o passo seguinte.
A casa de banho é o que é: Um espaço para largar merda e lavar-me.
Olho de novo para o espelho da farmácia. Barba por fazer e completamente dividida entre pêlos brancos, castanhos, pretos. Dentes ligeiramente amarelados tal a mistura abusiva de café e cigarros. Uma expressão sem sorriso possível, mas vincada em rugas e pontos negros de desleixo. Contudo gosto de colocar um pouco de Nivea para não ficar com a pele demasiado seca.
Apesar do amarelado, escovar os dentes faz parte da rotina também. Com uma pasta de dentes com sabor de merda.
Enquanto a face é trucidada no espelho conforme o movimento da escova, revejo a minha monstruosidade na perfeição simplesmente pela fixação propositada num olhar sem brilho:
Ninguém me conhece. Ninguém se interessa pela minha vida. Sabe pelo que passo. Sabe da minha solidão. Sou um vazio que vive despercebido pela sociedade. Uma história inicial de luta, coragem, amor. E um final de perda, abdicação, traição. Nada me dá prazer na vida que não o sofrimento de ainda a desejar. Ainda sonhar com ela. Ainda ter esperança num dia melhor. Aguento por um amor que não é correspondido.
A merda da escova rasga-me as gengivas ao cuspir espuma com sangue.
Pronto. Tudo está feito.
Hora de sair. Um último olhar para este sítio mais cinzento que a minha própria alma. É a casa que mereço, no fundo. O reflexo de um conformismo que vive para sonhar, sobrevivendo até lá com a dura realidade de respirar.
A porta fecha. 
O meu nome é Artur Ellis, e estou na merda!

E o dia ainda mal começou!

01 maio 2013

Casa

Sabem… O problema nunca é encontrar aquela pessoa à qual chamamos casa. 

Essa pessoa somos todos juntos num todo.

O problema é encontrar aquela pessoa a que chamamos alicerces, paredes, tectos, construção.

Podemos dar a nossa parte. O corpo, a alma, o coração. 

Nunca podemos dar é os materiais. As vigas. O metal. O cimento. A construção.

Precisamos sempre de alguém que seja a designer, A arquitecta, A engenheira...

Que pegue nos nossos fragmentos, E dê luz!

Precisamos sempre de alguém.

Pois o nosso caminho não é solitário.

É conjunto.

Sou eu. És tu.

E, se um dia… Quiseres… 
Eu serei tudo descrito acima. 
Tu serás tudo descrito acima.
Seremos uma empreitada.

E… Sabem! Eu e tu seremos uma casa.

Se quiseres…
Eu serei o que tu não és.
Tu serás o que eu não sou.
Seremos um.

18 abril 2013

Só os Jovens podem Quebrar


Só os Jovens podem quebrar

Nota Introdutória
Este livro não vai ser fácil de escrever. É escuro. Escuro demais até para a minha imaginação. Totalmente diferente do anterior.
O pano de fundo é um país dividido, perdido e sem esperança. A personagem principal é um homem cheio de bons valores mas sem espaço para os aplicar numa sociedade que se irá limitar a usá-lo e deitá-lo fora em cada degrau que ele percorre até à descida para uma decisão irreversível. Não sei se vou conseguir transmitir tudo isso nele e nas ligações dele com as outras personagens. Contudo, estes dois primeiros capítulos são dos poucos onde teremos a ideia de que as coisas podem ser melhores. Mas não o serão. Fica já o aviso. O primeiro dá um cheirinho sobre a sociedade a que ele pertence e a forma como ele vive. O segundo mostra amor e… sexo. Porquê? Porque nem tudo é o que parece… E mais para a frente certamente este capítulo que parece muito terno e até intenso, não será assimilado da mesma maneira…
Os restantes capítulos estão totalmente estruturados no guião e na minha cabeça… Apenas não estão desfragmentados em inúmeras palavras.


Capítulo 1

00.58 - Quarta-feira, 15 de Novembro de 2012:

Não consigo adormecer! Bem que queria, mas lá fora o estado caótico da cidade angustiada lança uma nuvem de raiva que rodeia a minha janela e ameaça entrar em cada uma das frinchas sob a forma de um ar frio, húmido e melancólico, para tornar este meu pequeno e último refúgio em mais um canto sem esperança, neste local abandonado por Deus.
Oiço gritos de protesto e contra movimentações de agressão indiferenciada a ecoarem pelas paredes do apartamento, como se o início de uma guerra civil não fosse um pensamento descabido, mas uma palpável acendalha junto de madeira e combustível.
São manifestantes a levarem o seu direito à indignação a extremos de destruição gratuita e polícias de intervenção com ordens totalitárias para não deixarem a indignação ter voz física nas paredes, nas montras, nas estradas. A única marca permitida nas ordens que ressoam chama-se sangue. Sangue intimidatório.
Oiço um estouro enorme! E nas paredes do quarto, fogo encardido reflecte-se como se uma chama estivesse a passear ao longo da rua.
Mas, se existe verdadeiro “cocktail molotov”, este é de pessoas contra pessoas a explodirem-se umas contra as outras, apenas com raiva nos olhos.
O simples motivo que originou tudo no dia de hoje - umas estarem contra as acções de governantes que não se importam com as especificidades das suas necessidades e outras estarem a cumprir ordens para salvaguardar as suas próprias necessidades – apenas serve a quem provocou o caos.
Quem provocou o caos, certamente não foram os que agora se confrontam.
Foram aqueles que não possuem coragem para dar a cara. Frente a frente perante as adversidades. Aqueles que devem assumir as suas responsabilidades. Explicar as suas acções. Demonstrar a coragem humana de liderança.
Porque quem provocou o caos alimenta-se deste. Da sua natureza monstruosa. Destruidora de sonhos simplicistas. Criadora de medos, intrinsecamente assimiláveis.
Quem criou esta babilônia precisa de cinzas de corajosos entes menores para se reconstruir. Refundar novas ideias de poder. Confronto entre classes de irmãos. Incerteza e indefinição. Tempo e desespero.
Finalmente, subserviência de almas despojadas de força para lutar… Ansiosas por um pão duro.
E, porque ser rastilho, incitador, instigador, inflamador, é extremamente fácil quando a protecção está assegurada por princípios nucleares da natureza humana que verifica numa personagem facilmente detestável a possibilidade de redenção, caso a protecção física falhe.
Porque quem hoje luta contra irmãos com raiva… Amanhã, invariavelmente, perdoará quem o considera filho bastardo.
Mas ainda quero dormir. Preciso de dormir.
Aqui sozinho. Longe da confusão enorme que preenche os cantos à povoada rua.
Aqui sozinho. No meu pequeno canto, que preenche todos os requisitos para fechar os olhos e sonhar com dias melhores.
Amanhã tenho que trabalhar! Tenho tanta coisa para fazer!
Já não durmo bem há dias e estou desgastado com toda esta situação. Todo este cinzento que reside na sociedade.
Como deixamos chegar as coisas a este ponto? E porque é que eu continuo a pensar? Porque é que estou preocupado? Tenho o meu emprego. Tenho a minha casa. Tenho a minha vida. Tenho comida no estômago… Sobrevivo.
Neste momento, sobreviver é a única forma de viver. Principalmente para quem tem um cadastro como o meu.
Será que tenho alguma coisa para tomar na farmácia?
Levanto-me? Sim. Aproveito para mijar, que pode sempre ajudar qualquer coisa.
Como é que ainda consegue-se ouvir o barulho lá fora? Que coisa feia.
Os meus pés vibram num taco convertido em onda de madeira desconforme. Até o pó acumulado levita, tal é a agitação lá fora.
Cada passada, longe do recolher reconfortante que é a minha cama torna-se um foco de angústia, incerteza, medo.
A porta da casa-de-banho também está a baloiçar ao som de cada petardo. Ao menos as paredes não estão a perder tinta ou a rachar…
Entro na divisão mais fria da casa mas também a mais clara. A luz que acende-se, por instantes encandeia os meus cansados olhos. Mas recupero rapidamente a visão, para encontrar o espelho da farmácia a mostrar-me uma cara desgastada, destruída, doente, desumanizada.
Abro a farmácia. Não quero mais ver esta figura que não conheço!
Mas está completamente vazia de medicamentos.
Ela levou-os todos quando fugiu…
Deixa-me mijar. Pelo menos isso.
Como o mijo flui tão branco até à retrete? Sem dúvida, não estou a abusar na alimentação. Um pequeno prazer, esvaziar a bexiga. Está a saber bem. Isto, certamente, vai reconfortar-me e acalmar-me. Vou adormecer bem, sem dúvida.
Acabo. Sacudo. Viro-me e lavo as mãos. Purificação do corpo. Sinto-me bem. O barulho torna-se secundário perante a certeza de que agora vou dormir. É uma certeza que trago comigo.
Atiro-me para a cama e enrolo-me nos cobertores! E o corpo parece saber que vai aquecer rapidamente! Volto a um estado de relaxamento que já não sentia a algum tempo!
Levantar-me foi boa ideia! Até deu para esquecer um bocado o barulho.
E, agora a reaquecer o corpo, tudo parece bater certo.
Os problemas acontecem. Toda as civilizações, melhor… Toda a humanidade vive de recorrências históricas.
Se este é um período negro? É, claro. Mas podemos dar a volta por cima. Como tantas vezes se deu, e se dará.
Eles, lá fora, vão perceber isso. E quem manda também vai perceber isso. As coisas vão mudar. O meu emprego vai melhorar as condições. A minha vida vai dar uma volta.
Talvez, até ela perceba que errou e volte para mim! Sim, isso pode acontecer. Eu estou aqui à sua espera. Crente que vai voltar a reparar em mim e nas atitudes certas que tomei.
Porque raio me sinto tão perdido? Foda-se! Fiz tudo bem. Agi sempre correctamente. Não percebo! Merda! Quero dormir!
Respira Artur. Respira. O mundo está em pantanas lá fora e tu estás a pensar nela? Sempre a pensar nela? Ela trocou-te! Escolheu o teu benjamim. Num momento em que deveria apoiar-te. Estar lá para ti. Ela fugiu logo para os braços dele! Nem te deu tempo de remendar as coisas! E tu agiste sempre para a proteger! Ela tem um filho. É dele. Foste traído. Pára de pensar nela e dorme, caralho!
Amanhã tenho que fazer a troca dos cd’s de gravação. Se não zelar por aquilo também ninguém se importa. É esquisito como uma central que alimenta toda uma cidade, uma verdeira peça estratégica, deixa que a segurança seja tão descurada.
Realmente, com tanto dinheiro lá investido, com esta turbulência nas ruas, a administração ter investido milhares na frota automóvel e manter o raio do sistema de vigilância no século passado… Paspalhos. É que nem reforçaram no pessoal. Só estou eu e o Pedro. E à vez. Se acontece alguma coisa a um de nós, a central fica completamente desprotegida. Porra! É que se me chamam para substituir o Pedro por qualquer motivo, ainda demoro uns bons quarenta minutos a chegar lá… E não há mais ninguém no imediato. Vão meter um funcionário administrativo na sala de segurança até eu chegar? É isso. Amanhã, se tiver tempo, vou elaborar um plano de contingência para qualquer eventualidade e falo com o Pedro na troca de turno a ver se ele concorda. Se estiver bem até o levo à administração. Não que me paguem qualquer coi…






Capítulo 2

A luz entra candidamente, conforme a porta se abre no quente e aconchegante quarto. Irradia uma cama preenchida por um enrugado cobertor que protege o corpo masculino, completamente nu. Pele humana e pelo artificial, misturados numa perfeita sincronia de protecção ao sonho que habita no subconsciente deste ser deitado.
Mas se a porta abre, é porque são duas as almas que agora partilham este espaço.
O doce cheiro, naquela suave pele coberta por uma camisa larga de homem que esconde a perfeição de um corpo feminino, rapidamente atinge a mesma dimensão de grandiosidade que a luz trouxera inicialmente à divisão.
Os passos são carinhosos demais para fazer o soalho tremer. Apenas levantam pequenas partículas de pólen depositadas no chão, pois este quarto faz fronteira com todo um colorido jardim, que está ainda semi-tapado pelo cortinado prestes a afastar-se em cada passo que aquele ser único, impossível de amar plenamente sem se viver eternamente, dá. Faltam quatro suaves passos… Três suaves passos. Dois suaves passos, um suave passo. Todos dados sem que o corpo deitado acorde.
O cortinado é afastado para um dia fantástico entrar, mas mesmo assim os olhos mantêm-se fechados. Terá que ser o toque daquela mulher perfeita, a acordá-lo.
Ela ajoelha-se junto à face dele e não sussurra nada de imediato. Fica imóvel. A guardar uma fotografia mental daquela cara a sonhar.
Ele não é lindo. Ele não é bom. Ele não é genial. Ele é normal. Completamente normal. Sem traços característicos. Olhos castanhos. Cabelo preto. Pele clara. Normal.
Tudo que o faz especial está no interior. Na pessoa honesta, pura, lutadora, idealista e única que também é. Na forma como ama e deixa-se amar pela mulher que finalmente estica-se, para carinhosamente tocar no cabelo dele.
Os espaços entre os dedos são rapidamente preenchidos com um terno deslizar da mão junto a uma raiz bem negra. O movimento é contínuo e reconfortante. Demais até, se o objectivo é acordar alguém.
Por isso é que a saliva ganha força nos lábios… E suavemente a voz expele doces palavras que começam o monólogo prestes a transformar-se em diálogo:
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Cátia : Amor. Mor. Acorda. Está na hora. Abre os olhos.      
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Um preguiçoso olho com remela abre e cria rugas na face dele. Mas a imagem… O cheiro... A luz... Um sorriso de felicidade é rapidamente o motor que liga todo o mole corpo para presenciar aquela paisagem divina.
Linda. De olhar aveludado e intensamente atento, cabelo dourado e marcadamente lustroso, lábios carnais e misteriosamente brilhantes.
Perfeita. De pele clara e magnificamente cheirosa, corpo fantástico e magicamente esculpido.
Única. Com uma personalidade ímpar: Genial, inteligente, simpática, trabalhadora, emotiva, apaixonada e todos os antônimos dessas palavras de um momento para o outro, tal é a charmosa tempestade que habita na sua alma.
A musa para tudo de bom que este homem é. A eterna paixão dele. A única capaz de o fazer levantar para as vinte e quatro horas mais importantes da vida de ambos: 
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C: Anda. Está na hora. Hoje é o teu grande dia! Já tenho o teu pequeno-almoço preparado.
Artur: Olá!
C: Olá!
A: Amo-te!
C: Eu também te amo… Mas vou-te bater se não te pões a pé!
A: Então bate! Não saio daqui!
C: Já te preparei o pequeno-almoço. Tens a roupa toda engomada. O teu discurso está na mala. Acordei-te com muito carinho e cuidado. E estás a fazer-te de preguiça, mor?
A: Sim! Tens que me tirar daqui à força!
C: Anda lá!
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Cátia levanta-se e começa a puxar-lhe o cobertor com um sorriso cerrado. Artur prende-se ao cobertor como se fosse um manto real.
Só que Cátia, com uma mistura de força e jeito, consegue puxar para si o espólio da preguiça. Fica a visão de um homem despido à sua frente…
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C: Que bonito! Parvinho. Anda lá vestir-te!
A: Não! Tens que me tirar à força da cama!
C: Hoje é o teu dia Artur! Não podes chegar atrasado. Anda lá! Deixa-te de criancices! Não vou aí! Estás a deixar-me chateada agora!
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Artur levanta-se rapidamente. Confronta rosto masculino com rosto feminino. Sorriso completo com sorriso escondido. Pele nua com tecido suave. Olhar intenso com olhar desconfiado. Lábios despertos com lábios trincados. Paixão com hesitação.
E prende-a a si rapidamente com a força de uns braços, até agora repousados.
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C: Artur, arre! Não! Estamos atrasados.
A: Um beijo?
C: Já sei que se te beijo, tu vais querer mais. Não!
A: Um. Prometo. E vou vestir-me.
C: Um só.
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Mas, um beijo nunca é só um beijo.
É o mecanismo que liga todos os outros sentidos.
É a lembrança que perdura no sabor dos lábios.
É o vírus que se alastra para o arrepiar da pele.
É o toque que encoraja os corpos a unirem-se mutuamente.
É o choque que deixa os órgãos num hiato momentâneo.
É o pavio para a intimidade ardentemente desejada.
É a primeira batida que sai dos sentimentos guardados nos corações de dois amantes.
Um beijo nunca é só um beijo…. São dois… São três... São quatro… São suaves… São deliciosos… São puros… São sedutores… São intensos… São o começo…
Os dois amantes percebem isso com a mesma rapidez que um relâmpago percebe que encanta os olhares indiscretos da humanidade ao rasgar o céu de forma visível na janela do quarto, nesse preciso momento.
Como o relâmpago, rapidamente a camisa é rasgada do corpo feminino, incapaz de suster o desejo de um homem possuído por uma paixão que o faz transformar-se num enorme pedaço de pele musculada, que anseia por tocar em todas as partes que unem a si um outro corpo também já despedido.
O descer dos lábios masculinos para perto de um ouvido feminino, que agora já só deseja ouvir gemidos, provoca veias salientes, cheias de paixão bombeada rapidamente por um coração que começa a ganhar a batalha a um cérebro prestes a perder objectividade:
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C: Mor… É melhor… Melhor… Parar.
A: Sim. Daqui a nada…
C: Mor. Não temos… temp… Mo…
A: Xiuuuu…
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A cama rapidamente volta a ser ocupada num salto de fé que estremece as molas.
Pelos dois.
Unidos como um só.
Primeiro ele. O animal que percorre o corpo dela com a asperidade arrepiante e excitante de umas mãos bem vincadas, e a humidade medida de uns lábios que se unem aos dentes para suavemente trincar os seios femininos, nos interregnos de uma língua incapaz de ficar quieta, tal é o sabor da suave e frutada pele desta mulher perfeita.
Primeiro ele. O animal que afasta as pernas dela com a força dos seus braços para descer beijo a beijo, toque a toque, a sua cabeça até à união de anatomicamente diferentes lábios. Os dedos juntam-se rapidamente, tal é a chama e a necessidade de toque. As cuecas dela desaparecem instantaneamente para um canto do quarto.
O barulho já não mais se vai basear em palavras devidamente conjugadas, mas sim em honestos gemidos de prazer.
E gemido a gemido cresce o desejo.
Primeiro ele. O animal sobe repentinamente os seus lábios de volta aos seios, de volta à boca dela. As pernas continuam afastadas. Mas agora separadas por um tronco másculo que começa a movimentar-se, como que perdido à procura de um ponto de união. É o músculo completamente erecto dele que encontra o encaixe perfeito.
E os movimentos começam a ser constantes.
E as línguas prendem-se uma à outra para abafar o barulho dos gemidos.
E a cama cria um som mecânico, demonstrativo da força com que a penetração é efectuada.
E o suor a escorrer pelo corpo dele demonstra que estes minutos, que mais parecem eternos segundos de prazer, são intensos.
E uma força suprema percorre o corpo dela.
Agora ela. A divindade que consegue fugir do encaixe, só para sorrir e virar em força um corpo duas vezes mais pesado que ela à sua mercê. Pois é a sua vez de usar o desejo em benefício próprio, com a sua boca a beijar ferozmente o salgado corpo masculino.
Agora ela. A divindade que com a língua deixa desesperado, mas curioso, o homem que a observa a descer pelo seu corpo.
Mas pára de repente, olha cerradamente e sorri maquiavelicamente para ele, antes de continuar a descida do prazer, só para o seu loiro cabelo tapar toda a erótica visão que ele teria no momento em que a mão dela agarra-o com toda a força.
Antes de abrir a boca e soltar a língua, mais um levantar da cabeça para que ele tenha a certeza que está a ver a mais bela mulher do seu mundo, com um olhar completamente fulminante para o seu frágil coração de animal.
O cabelo desta vez só tapa parte da visão, pois a cabeça afasta-se para que a língua tenha espaço para se mover e a boca abrir, para com movimentos suaves, juntas fazerem desaparecer todo o órgão masculino, deste homem que já só revira os olhos, tal é o prazer.
Agora ela. A divindade acha que chega de gozo dividido. Mostra todo o esplendor das suas formas com um elevar poderoso do seu corpo, e com a mão prende no seu interior a erecção que atinge uma dureza tremenda.
E a cama torna-se numa visão estonteante de um corpo a levitar sobre o outro numa clara sinfonia de sentidos despertos. Rangue, tal é o saltar de um sobre o outro.
Aquela figura divina dança presa ao animal com cada vez mais violência.
O seu rabo começa a serpentear incessantemente enquanto os seios criam uma vibração pelo corpo sedutoramente erguido.
A energia é demasiado intensa para durar muito mais tempo.
Os gemidos começam a sincronização.
O corpo dela desce para voltar a tocar o dele. As mãos de ambos agarram-se mutuamente com uma vontade arrepiante. Os olhares cruzam-se num rodopio extasiante. Os lábios retornam a sentir a saliva de ambos. Uns rápidos e finais movimentos…
A paixão é sentida como electricidade. Como um relâmpago. Como o primeiro beijo do dia…
Como o verbo amar é conjugado num último gemido conjunto.
Um beijo nunca é só um beijo.